Entrevista: soluções tecnológicas e logísticas para a gestão de resíduos

Desta vez, a Inovar Ambiental bateu um papo com o fundador e CEO da BH Recicla, Vitorino Oliveira. Empreendedor em inovação e sustentabilidade, ele comanda uma empresa referência em gestão de lixo eletrônico, em Belo Horizonte, startup que busca soluções tecnológicas e logísticas para a gestão de resíduos. Importante ressaltar que a BH Recicla é parceira da Inovar.

Na entrevista abaixo, ele conta sobre as vantagens de destinar a sucata com empresas que oferecem certificação e rastreabilidade, o tratamento e destinação de resíduos e, ainda, explica como é feito o serviço de desmobilização empresarial, entre outros.


1.Inovar. Como é feito o serviço de desmobilização empresarial? Ele pode ser executado em companhias de todos os setores?

Vitorino. A Desmobilização Empresarial reúne um conjunto de técnicas e procedimentos aplicados ao desmonte, descaracterização, classificação e correta destinação final de móveis, instalações e equipamentos utilizados em empresas, visando sempre o melhor Resultado Ambiental e Econômico. O trabalho atende a necessidade de empresas que estejam em busca de adequações em espaços físicos, seja em busca de liberação de espaço, upgrade em instalações, ou em função da descontinuidade de algum projeto ou processo. Portanto aplica-se aos mais diversos setores. De escritórios até pátios industriais.

2.Inovar. Quais meios de tratamento e destinação de resíduos que são utilizados por esse tipo de serviço?

Vitorino. Priorizamos a reciclagem e o reúso dos materiais, cada qual conforme as suas características na cadeia de logística reversa. Neste trabalho é rara a produção de resíduos perigosos, quando ocorre nós trabalhamos em parceria com a Inovar Ambiental para tratamento desses resíduos.

3.Inovar. Para o cliente, quais as vantagens de destinar sucata com empresas que oferecem certificação e rastreabilidade?

Vitorino. As empresas são legalmente responsáveis pela destinação de seus resíduos, a garantia de rastreabilidade e correta destinação dos materiais resulta em segurança para o empresário. Mas acredito que a principal vantagem é que o empresário terá facilidade e simplicidade no momento de prestação de contas para o Governo e para seus Clientes, pois sabemos que os valores socioambientais são uma demanda emergente de toda a sociedade.

4.Inovar. Todo tipo de sucata pode ser refundida para uso posterior nas indústrias? Existe alguma estimativa sobre a porcentagem de material metálico que é descartado e, posteriormente, volta ao setor produtivo?

Vitorino. Os metais mais populares na construção de máquinas, equipamentos e estruturas empresariais, tais como ferro, cobre, alumínio e inox são 100% recicláveis, desde que corretamente classificados, de acordo com as ligas metálicas que os compõe, podem ser refundidos sucessivamente. Não tenho conhecimento de estatística de retorno para os principais metais, mas sabemos que o alumínio e o cobre têm ciclo rápido de retorno para fundição devido ao seu valor agregado como sucata.

5.Inovar. Segundo estimativas, o Brasil gera cerca de 1,2 milhão de toneladas de resíduos eletroeletrônicos por ano. No continente americano, esse número é apenas menor do que o dos Estados Unidos. Quais os desafios que esse passivo traz à sociedade e a toda cadeia?

Vitorino. O lixo eletrônico possui metais tóxicos bioacumulativos em sua composição, os riscos de contaminação e danos ambientais em caso de descarte inadequado são altos. Ainda temos a perda de uma riqueza que pode ser produzida através da reciclagem e uma potencial diminuição de utilização de matéria prima “virgem” no futuro que não está ocorrendo.

6.Inovar. Em sua opinião, por que o Acordo Setorial sobre Resíduos Eletroeletrônicos, previsto na PNRS, tarda a ser assinado?

Vitorino. A única parte da cadeia de logística reversa que funciona para o lixo eletrônico é exatamente esta em que trabalhamos, o “ferro velho”, e tanto industria fabricante quanto o governo não nos ouvem a respeito. A justificativa de ambos para o atraso na assinatura do acordo, dentre outras, é a de que os custos seriam absurdamente altos. A BH Recicla está próxima de atingir mil coletas mensais gratuitas de lixo eletrônico, apenas em Belo Horizonte, com um pouco mais de recursos seria possível multiplicar as técnicas que aplicamos na logística de coleta e destinação de materiais. Mas o “Ferro Velho”, empresa de gerenciamento do lixo eletrônico, não é ouvida. Recebemos, em nossa última tentativa de conversa com a FEAM, Fundação Estadual de Meio Ambiente, a resposta de que “nessa fase do acordo a BH Recicla não pode colaborar…”.

7.InovarSobre a PNRS, as constantes prorrogações para o fim dos lixões e a demora na assinatura de acordos setoriais somada à falta de clareza do governo e das empresas em transmitir o conceito de logística reversa à sociedade, tem-se o medo que a lei vire “letra morta”. Como o senhor enxerga esse panorama?

Vitorino. O Cenário político no Brasil, infelizmente, inviabiliza que nossos congressistas trabalhem em função da sociedade. A PNRS tem muitos problemas e muitos ajustes necessários, e os acordos setoriais carecem de pragmatismo. O que vejo é que o mercado está reagindo lentamente à demanda social de maior responsabilidade sócio ambiental. Sou otimista, acredito que esse movimento vai impulsionar o governo, em algum momento, a colaborar para que o ecossistema funcione de modo harmônico. Apesar do governo, várias iniciativas empreendedoras têm surgido no país, incluindo startups de base tecnológica, e vejo um futuro promissor para o setor.

8.Inovar. Acredita que a educação ambiental seja a maneira mais eficaz de prevenir, amenizar e resolver todos os problemas ligados à degradação ecológica do planeta?

Vitorino. Sem dúvida alguma. O papel das empresas do setor, inclusive, tem de incluir a educação ambiental. O conteúdo produzido pela Inovar Ambiental é um bom exemplo de atuação nessa área. Na BH Recicla temos o nosso blog e várias atuações em redes sociais e em instituições parceiras buscando fornecer informações a respeito da correta destinação dos resíduos.

9.Inovar. Muitos estudiosos no assunto dizem que a “consciência ambiental” é um termo que deveria ser substituído por “comprometimento ambiental”. Concorda com a posição? Nessa linha, qual o papel das empresas?

Vitorino. Concordo, eu costumo dizer que o problema ambiental é um problema de responsabilidade. As empresas precisam mostrar que são empresas comprometidas, não basta colocar a cor verde na embalagem dos seus produtos. É necessário comprovar a destinação dos seus resíduos, seus números de consumo, descarte, reutilização e etc.

10.Inovar. Acredita que falte diálogo e articulação entre o Setor Privado e o Primeiro Setor para que uma real mudança se inicie em termos de preservação ambiental?

Vitorino. Os governantes brasileiros estão isolados em suas secretarias imaginando coisas a respeito do gerenciamento de resíduos e criando leis inviáveis e ineficientes. O diálogo é pobre e enviesado, o setor privado também precisa melhorar seus representantes nessa interlocução.

 

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